quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fera

Eu quero não mais doer.
Eu quero que essa minha cara espremida
largue meus olhos.
Eu quero que meu coração permaneça aqui
e que
o que
o meu cérebro domina intenção,
esmoreça no gesto real.
Eu quero o poder em meu crânio!
Sinto meu corpo corroído e engasgado
porque o meu eu
se fere por não ter,
na mente,
freios.
Os subterfúgios e as loucuras de minha mente
- como achar que deveria ter feito isso ou aquilo
a determinado espaço de tempo
antes que o meu inteiro ser fosse subtraído em metade
ou aniquilado -
não me deixam fluir.
Eu estou ferido.
Ando infeliz pelas ruas
e a casa não me conforta.
Estou doído e preciso superar o que me contorce.
Não há fuga, há perdição.
Saudades, saudades...
Dias de agulhas espalhadas pelas articulações.
Noites solitárias e desbotadas.
Quando caminho pelo ar
sentindo que o chão me guia,
o medo não absorve minhas forças.
Nesse exato momento
parei meu trabalho,
caminho árduo e profícuo
da tinta inspirada no ser.
Pois o que me veio foi outra voz,
outra vez a voz não minha
soando o ranço cretino da morte
como um mormaço pegajoso na pele
que o ar envolve
pra lá e pra cá,
pra lá e pra cá...
Descrevo minha angústia e ela se foi já.
Um mar solitário usa suas ondas
como correntes,
tentáculos
do monstro marinho
a procura de meu corpo.
Nada do que esse azul sente é meu!
Nem o fundo,
nem o que se diz belo.
Tudo é enganador.
Lanço ao vento minha lâmina
e tentáculos do mar corto
e eles secam no ar e somem na força
de minha inteireza,
atento ao real caminho
e ao real ser.
A luta é toda manhã
quando
o sol me encontra
e eu o saúdo
com a honradez
de um cavaleiro.
O Olho Infinito dos Dias
abrilhanta meu corcel
e empolga-me
com energia vital.
Eu, num gesto certeiro,
guio-me à praia
- campo de batalha -
e faço daqueles monstros de sal
grãos como os que piso,
destruídos pela minha essencial espada
e pelo gesto centrado e altivo
de meu coração e de meu corpo
não deixados ao léu,
porque dominei,
com meu ser,
os diabos das ideias oscilantes
como as ondas tentaculares
desse mar indigno
que não mais me afogará!

Um comentário:

no mundo da lu(a) disse...

Lindo poema,João.
Acho incrível este transito que tens entre o forte e o dócil,entre ser e estar.

" Nada do que esse azul sente é meu"
E há algo que seja verdadeiramente nosso?

beijos,