sábado, 2 de outubro de 2010

Rosto de Luz

Rosto de luz?
Rouquidão de sono.
Uma canção para um bebê.
Voz de livro.
Palco para asas.
Som do mar nas palmas das mãos.
Nada lá fora.
O sonho era uma casa alagada até o teto em que todos flutuávamos no conforto.
O sonho era uma escada em espiral de ferro até a porta que,
no instante de se abrir,
eu descia num furacão levando o calor do sono
e eu voltava a respirar,
mas esbaforido,
reconquistando meu coração estraçalhado pelo tétano nas ferrugens da escada.
O sonho era finalmente entrar no apartamento
e ver no muro vizinho
um sem-número de gente feliz
se equilibrando sem me notar.
O sonho era uma mulher nua de cabelos compridos e pretos sobre
os seios
com os braços
abertos
diagonalmente
para baixo
guardando um feto morto de lobo.
O sonho era um salão gigantesco
onde a amada me conduzia com meus trapos
para dentro de um tubo de ensaio substancialmente ungindo-me com o mel da loucura.
O sonho era um beijo real
dentro de um sonho real que sonhei
e depois vivi
na esquina em que arrepiei
quando percebi
aquilo ser um sonho de verdade:
um beijo sobre a chuva da liberdade
depois do sol do álcool.
O sonho era a morte do irmão mais frágil
procurado pela avó
ao tocar as mãos
sobre os escombros de uma cidade,
a energia da Natureza esquecida.
O sonho era aquela baixinha
que eu desrespeitara endeusando meu corpo com sua boca:
agora a sua vergonha era prazer e,
minha loucura,
realidade.
O sonho era todos os dias viver,
colocar os pés no chão
e construir o caminho e a casa,
criar a Arte,
conquistar o Verdadeiro Amor numa mulher não louca
e ter filhos sob a bandeira concreta das utopias
flanando nos atos sábios e pragmáticos
do despertar...

Um comentário:

Marina disse...

oie, João, como tah?
Postei um trecho de um dos teus poemas lá no meu blog prá divulgar, com o endereço do teu. Entra lá prá dar uma olhadinha!!!!
bjoooo