quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Torto

Sei dizer sim e fazer não.
Sei dizer não e fazer sim.
Isso é sabedoria demais
Para mim
Que tanto prezo
A humildade, enfim.
Avassaladora

De todo o Cosmo,
Tu és a única que brilha
- Minguante razão, o próprio devaneio,
Nova em tua atmosfera febril,
Crescente em teu reino,
Cheia de si -
Sempiterna guia,
Musa universal de minha classe,
Satélite indecente
Fervendo
O frio e o vácuo
Da imensidão.

domingo, 3 de novembro de 2013

Maria Sem História

Maria só chora sozinha.
Maria conversa em silêncio.
Maria pergunta de novo.
Maria, igual a ontem, será amanhã.
Maria "sim, senhora!" com sorriso humilde.
Maria do coração perfeito.
Maria da alma ingênua.
Maria arrastando o corpo no mundo de quadrados com
Paisagens e vozes repetindo o mesmo enredo pela janela.
Maria perdida no tempo que é.
Maria imaginando uma catástrofe da natureza.
Maria rememorando o tempo que vivia feliz.
Maria, angustiada e velha, calando.
Maria das dores nos ossos.
Maria da injeção paliativa.
Maria que passou a fazer falta.
Maria que pede para morrer.
Maria que me enlouquece.
Maria achada na adolescência foi à demência.
Maria perdida na infância estuprada.
Maria relaxada e envergonhada pela fraqueza
Dos músculos calejados e pela inaptidão da massa encefálica.
Maria com saudade.
Maria inútil.
Maria decepada na mama.
Maria sorridente.
Maria que não entende.
Maria doente de ser doente.
Maria do pudor infeliz.
Maria sonhando com as mais belas crianças
Saindo de outras mulheres.
Maria me botando no colo.
Maria que me avisa do leite e do lixo sem parar.
Maria violentada na boleia do caminhão.
Maria batendo na porta.
Maria perguntando "pronto?" ao telefone.
Maria suspirando a vida toda dizendo amém.
Maria sem salário que sonha ficar rica.
Maria desgraçada pela família.
Maria recebida com amor.
Maria com nojo de nudez.
Maria sem gozo, sem prazer.
Maria que ri de banalidades.
Maria que não entende uma piada.
Maria que nunca votou.
Maria atrofiada.
Maria esperando visitas.
Maria perguntando "até quando essa cruz?"
Maria que, quando morrer, me fará chorar de alívio e de dor.
Maia rindo da própria tristeza.
Maria caridosa.
Maria exigindo respeito.
Maria ouvindo minha fúria fugindo em silêncio.
Maria que entende da simplicidade da vida.
Maria que se assusta com a porta batida.
Maria que abre a porta para ver o corredor
Escuro, vazio e silencioso e,
Depois, ofegante,
Se arrasta pro sofá de novo.
Maria atiçando minha maldade.
Maria implorando companhia.
Maria exibindo miséria com chinelos que rangem.
Maria da perna torta.
Maria confusa.
Maria com poesia arcaica me surpreendendo
No sorriso e no olhar infantil escravizado.
Maria que reclama da solidão implacável
E das visitas extintas desde a solidão maior.
Maria sem fé.
Maria guerreira.
Maria calada dizendo sua verdade,
Sua impotência declarada na falta de expressão...
Maria quase pondo fogo na casa.
Maria que perdoa por falta de opção.
Maria que não vê o sol.
Maria com lugar marcado no Céu.
Maria amante das crianças,
Dos animais
E dos domingos na frente da TV.
Maria dos músculos contraídos pela
Alma retraída isolada
Do coração traído.
Maria praguejando, depois rindo.
Maria arrependida por não ter se casado...
Maria tentando brincar comigo
Alguma graça que não vejo
Na redundância do nosso quotidiano.
Maria reclamando que ninguém mais aparece.
Maria reclamando de quem lhe cuida.
Maria reclamando que não mais há crianças correndo na rua.
Maria reclamando do barulho dos outros.
Maria traumatizada debaixo das cobertas
Esperando
Que eu chegue da minha liberdade
Para dizer-lhe que a chuva não pode nos matar,
Nem os raios, caírem nas nossas cabeças.
Maria me acordando antes para nada.
Maria me avisando que velhice, doença e solidão somadas
Matam tão lentamente, que morrer
Seria o maior gesto de amor concedido por essa vida.
Maria deitando com esforço para olhar o teto
E pedindo que ele desabe tão logo durma.
Maria sorrindo leve
Escondida sob os tijolos
Que eu, imóvel, seguro em minhas mãos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Primeira Flor

Dorme com Deus
E acorda com um sorriso lindo
Tendo-me em teus pensamentos
Que dormem agora comigo...
Sonhos de sentir
Plantam voz no silêncio,
Desprendem o ar
Do sumidouro.
Olhos em vão reacendem:
O tanto do tato tolhido.
Superfícies e invólucros rompem-se
Com o fogo do mistério universal
Invadindo.
Terra verdejante em meu peito seduzido,
Ardendo noite que fora esquecimento.
Primeira flor essa surpresa - nada alheio,
Tudo vivo,
Cada sorte em seu destino.
Estrela em meu ouvido,
Capacidade de tentar
Quando a memória é falha - morta, jamais!
Deslize profundo de desejo
Feito mãos enraizadas na Alma da pele.
A sede que brotou espera
Saciou-se
No pingo da aurora.
Todo coração cansa de bater só.
Deito meu peito ao teu
E destruímos prisões!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

No Verão da Existência

Quero morrer
Fazendo Amor
Sobre a minha velha companheira,
Vida.
Nas coisas ruins não há ordem.
Só há regência no Amor.
Seja no Amor, seja na Guerra:
Ame o seu dia!
Há sempre uma surpresa
Quando destruímos o mundo geral
E descobrimos o motivo de aqui estarmos.
Após o Despertar do Espírito,
Mesmo a Dor tem sabor e perfume de Flor.
Pequenas Primaveras da Alma
O meu corpo e o meu refletir
Exalam
Por olhos,
Boca,
Poros.
E no Verão da Existência
A Sinfonia da Vida é entoada
Consciente e inconscientemente
No trabalho Artístico de aceitar e evoluir,
Revolucionando tudo
Que ao meu redor quiser,
Junto, vir!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Do Coração e do Pão

Um dia
Esse osso de minha fronte...
Esses músculos fazendo máscaras...
Egos indecifráveis, um dia...
Escravizadas fontes de nervos
Suportando o intraduzível.
Toda tensão sobre os ombros e as omoplatas,
A fadiga suando sua última gota de sal.
O protuberante Sol de ninguém,
De lugar prometido nenhures,
Para todos erguido pela fé diária.
Um dia
As pernas aos trancos...
Minha mandíbula vaginal
Sulcada de sucos
Vertendo teu gozo épico!
Os "clec-clecs" dos dedos quebrados, rompidos,
Que acordes inventaram
Silêncio...
Tubo digestivo
Os fenômenos intrínsecos ao capital
Vomitando.
Relevância subjetiva
Rasgando todas as tentativas...
Mas a gente segue tentando com a ternura devida.
Oh, tendão enfraquecido:
A palavra da Maldade
Esgotando por ora a Esperança,
Recolhida em contemplação,
Em nome da revolta futura.
Não há de tardar!
Se tardar, problema haverá sido calar!
Oh, prisão do meu corpo só!
Oh, ventre que eu entre potente,
Presente,
Com os dias e as noites solicitando-me frequente!
Um dia, afinal...
Do coração e do pão.
Inteiro compartilhado.
Revolução de vísceras à luz da Comunhão.
Medo

Medo de abraçar.
Medo de se deixar levar.
Medo de Amar.
Medo de a criança em si voar.
Medo da rua.
Medo da Lua.
Medo da coisa crua.
Medo da palavra nua.
Medo daquele beijo.
Medo de engordar com queijo.
Medo, Senhor Medo.
Nalgum lugar outro torpedo.
Mais um irmão querendo o petróleo da Morte,
Matando seu irmão sem sorte,
Outro retrato da Morte.
Medo, Senhor Medo.
A Ti também eu fedo.
Humano, carniça, dedo.
Medo, indigno medo.
Minhas vísceras estão doendo.
Nos portais da solidão outro solitário está sofrendo.
Pois nos viu chegar em luxúrias, por isso nos expulsará cedo.
Medo, Humano Medo.
Nossa crença é o teu enterro.
Pedra, terra e frio onde jazerás de medo.
E nós não teremos medo
Do ponto de vista dos erros.