segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O beijo

Eu sabia das lágrimas,
impedidas pela sua garganta seca,
contendo-se.
Procurei suavizar sua autocrítica
retribuindo com meu peito:
palco de sua canção.
Meu Amor, num abraço,
superando-lhe a estafante dor.
Nossos sorrisos enlaçados no sol,
no perfume jorado na abóbada azul,
com o beijo,
vivendo canções infinitas!

Flores

Eu tenho uma dívida inestimável para com as flores.
Mesmo assim, amainando meus infernos, elas brotam na porta da morada
mais delicada e, num sorriso gerado pelo gesto humilde, enternecem a vida!
A mesma flor que eu mastigava com poções de insetos, terra e água da chuva,
é a que me liberta da culpa abissal.
Composta pelas cores enigmáticas da luz solar em teu coração calmo,
resplandece artérias, afagos e ares.
Imensurável suavidade entre os meus, ainda nocentes.
Natureza grauita para reavivar minha pureza
e destronar minha tirania incontrolada
com a espontaneidade dos que não lutam contra o tempo,
nem contra a dor.

O piano

Tenho as teclas em meus dedos perscrutadores.
As cordas vibrando em minha caixa torácica.
E o som em redemoinho na alma,
sorrindo o vento de todo movimento.
Não seco!
Não seco!
Deixo escorrer até ter o sabor da amargura provada em melodia.
Desdobro a harmonia indecisa lascada no improviso.
Desdenho a pauta amarelada com o calor que só de mim sai
e situo o som pelo teatro num foco denso da escuridão,
num sobrevoar da composição, entoando platéia enternecida,
pelo dançado lume em seu coração.

O tempo dentro da gente

Bruxuleiam entre a delicadeza e o desespero.
Voam para trás e par frente, solfejando no éter distane.
Esperam...
Seu temperamento, já cansado da feroz curva pétrea, desfoca-se da credibilidade própria e sente, pesarosamente, sua argúcia abater-se.
A demência chega, inodora, e a companhia de si é surpreendida pela ausência própria.
O que não foi esquecido toma voz e corpo, e o sustento dessa miséria perambula pela casa materna reinventada.
Pesadas, aquelas fechadas negativas enternecem, pois por ourtas espécimes são tocadas.
Alcançarão, apenas depois, o descanso tardio do gelo da água.
Então, quando forem memória, visitaremos sua vida distanciada muito antes do tombo que nem sentiram.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O muro caiu?

... e então o muro foi erguido pela Ignorância, partindo o pequeno espaço divido entre a Maldade e a Ingenuidade que há anos necessitavam uma da outra para sobreviverem.
Tendo como regra a harmonia cruel que sorri somente com os olhos sarcásticos, a Maldade entornava sua calda quente sobre a Ingenuidade para imobilizá-la.
Esta, por sua vez, tentava persuadir a necessária inimiga dando-lhe flores sem perceber os espinhos tensos que sangrariam sua companheira de cinismos.
Uma em cada lado do muro, subdividindo-se à dureza do divisor com corridas feito lâminas que findava ao chocarem-se contra a imponente parede, que de maneira alguma sentia. O muro nunca sentia, só dividia. Elas, sangravam.
As duas choravam encostadas no muro, querendo uma a pele da outra, implorando a ele (porque era o único santo, deus, diabo, a forma mais próxima de um reinado extinto chamado Humanidade) piedade, por serem os sentimentos mais intrínsecos a tal civilização.
A Maldade e a Ingenuidade conseguiram, depois de muito esforço, quebrar o muro e tocarem-se entre as ruínas do ditador de tijolos que sorria ao ver que do contato entre elas nascia a Ignorância, Princesa da Humanidade.

O Encontro

Ela passava e seu desejo de entrega era uma confissão.
Ela olhava ao redor de si mesma, do mais próximo alvo acolhido por seus olhos tristes, mas esperançosos, ao melhor forjado encontro com seu cavalheiro, do outro lado da rua, mas pudica, desviava.
Queria deixar ser tocada por ele, tão oco que chegava ao ponto de deixar disparar seu coração e não entender as palpitações em seu peito.
Enamorados, sim. Mas sem o saberem.
Assim passavam as 19 horas de todos os dias inteiros de saudade pelo próximo olhar, antiga dor contada nos dedos, nos passos que diminuíam o ritmo para ter mais tempo de tentativa para conquistá-lo, coisa que já tinha feito sem que soubesse.
Ele, pela falta de astúcia, a denominava ausente quando em seu quarto escrevia em seu diário já cheio de referências a ela.
Certo dia ela abandonou seu medo e foi pelo ouro lado da rua. Ele não passou. Surpresa e envergonhada, foi para casa com passos apurados.
Nos dias seguintes, tomou coragem e fez o mesmo. Novamente ele não veio. Sabia seu nome - Pedro - e teve horror ao imaginar que houvera saído da cidade. Logo descobriria que ele estava muito doente e não conseguiu segurar-se, pois já fazia muits semanas que aquela rua ficara vazia para ela. Não aguentou e foi visitá-lo. Seu estado era gravíssimo, mas nenhum médico diagnosticava a doença.
Sentou-se na cadeira mais próxima a cabeceira da cama e ele, sussurrando, pediu que se aproximasse de sua boca e, então, disse: "eu estou morrendo de amor! Por que não vieste antes? E por que não consegui chegar perto de ti tão graciosa?"
Ela encostou os lábios com força à sua têmpora e agarrou sua mão fria e sua para dizer: "agora me encontro a ti! Posso ser para ti o que sempre desejaste! Reanima-te Reanima-te!" Sussurrando, ele respondeu: "estou sem forças. sem forças para mais amar. Foram meses de ausência tua, a qual nunca encontrei realmente! Deixai-me por ser lerda! Deixai-me por ser eu um covarde!"
Ela o abraçou sem perceber que o sufocava, tamanho o sentimento. Ele tentou buscar seu fôlego torpe mais uma vez, em vão.... morrera.
Ela o abraçou com ainda mais força e chorou compulsivamente, ali ficando a embalar o corpo em seu colo um tempo sem fim.